
Nos filmes de zumbi, existe uma regra quase universal: às vezes, basta um arranhão, uma mordida.
A pessoa ainda está de pé. Ainda fala. Ainda caminha. Ainda parece a mesma.
Mas, a partir daquele toque, algo mudou.
A contaminação começou.
Talvez a Justiça produza, em muitos casos, um efeito parecido.
Não estou falando apenas de condenação.
Não estou falando apenas de manchetes, exposição pública ou julgamento social.
Estou falando de algo anterior: o momento em que a Justiça toca a vida de alguém.
Esse toque acontece quando o nome de alguém aparece em uma investigação.
Quando uma acusação precisa ser respondida.
Quando um fato passa a ser apurado.
Quando um conflito deixa de estar apenas no campo da vida e passa a depender de uma decisão.
Nesse instante, o status quo muda.
A pessoa pode ser inocente.
Pode ter razão.
Pode ter documentos.
Pode ter explicações.
Pode, ao final, vencer.
Mas ela já foi tocada.
E quem é tocado pela Justiça passa a carregar uma jornada que não escolheu.
A partir dali, o tempo muda.
A rotina muda.
A tranquilidade muda.
A relação com a reputação muda.
A relação com o patrimônio muda.
A relação com a família muda.
A relação com os negócios muda.
A relação com o futuro também pode mudar.
Porque a Justiça, quando entra na vida de alguém, não entra de forma neutra.
Ela pesa.
Ela exige.
Ela impõe espera.
Ela cria dependência.
Quando a vida passa a depender da Justiça, a pessoa passa também a depender de fatores que nem sempre controla.
Passa a depender da interpretação de terceiros.
Do tempo do processo.
Da leitura de uma autoridade.
Da força da prova.
Da fragilidade de uma versão.
Da competência da defesa.
E, muitas vezes, da sorte de não ser mal compreendida.
Existe uma verdade incômoda sobre tudo isso: a Justiça nem sempre é justa no tempo em que a pessoa precisa que ela seja.
Às vezes, ela chega tarde.
Às vezes, demora demais.
Às vezes, compreende mal.
Às vezes, corrige depois que o dano já atravessou a vida de alguém.
É nesse intervalo que nasce o efeito zumbi da Justiça.
A pessoa ainda não foi condenada.
Mas já começa a carregar sinais da contaminação.
A dúvida.
O rótulo.
A suspeita.
O comentário.
A manchete.
O silêncio de algumas pessoas.
O afastamento de parceiros.
A insegurança dos negócios.
O medo da próxima decisão.
A imprensa, o julgamento social e a opinião pública não são necessariamente a causa principal.
Muitas vezes, são efeitos dessa causa.
Porque basta a Justiça tocar para que o mundo passe a olhar de forma diferente.
A presunção de inocência existe como princípio.
Mas, na vida real, muitas vezes, a pessoa se vê obrigada a provar que continua sendo quem sempre foi.
Provar que não é o rótulo.
Provar que não é a acusação.
Provar que não é a narrativa.
Provar que não é a dúvida lançada sobre ela.
E mesmo quando o processo termina, nem sempre a marca desaparece.
Porque algumas decisões encerram processos.
Mas não encerram percepções.
Algumas absolvições limpam autos.
Mas não limpam memórias.
Algumas vitórias jurídicas chegam depois que a pessoa já perdeu noites de sono, oportunidades, relações, tranquilidade e, em alguns casos, parte da própria reputação.
Esse é o efeito zumbi da Justiça.
Não porque a Justiça seja sempre injusta.
Mas porque, quando ela toca alguém, algo inevitavelmente muda.
A pessoa passa a viver sob uma espera.
Sob uma dependência.
Sob uma incerteza.
Sob uma pergunta que antes não existia.
E talvez uma das maiores ingenuidades da vida seja acreditar que só precisa se preocupar com a Justiça quem fez algo errado.
Não.
Você pode fazer tudo certo até que alguém diga que você fez errado.
E, a partir desse momento, você já não está apenas vivendo a sua vida.
Você está tentando preservar a liberdade de continuar vivendo-a da forma como sempre viveu.
O maior efeito da Justiça nem sempre está naquilo que ela decide.
Muitas vezes, está naquilo que ela passa a controlar enquanto ainda não decidiu.
Franklin Assis
Advogado, empresário da advocacia e fundador do Franklin Assis Advogados Associados.
Escreve sobre Justiça, reputação, liberdade, proteção patrimonial, narrativas, segurança jurídica e os impactos que decisões, acusações e conflitos produzem na vida de pessoas e empresas.
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